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Crítica: A Batalha das Correntes


A “Guerra das Correntes” ocorreu ao da década de 1880 e começo da de 1890, e foi o conflito entre os defensores da corrente alternada, Nikola Tesla e seu financiador George Westinghouse, e Thomas Edison, defensor da corrente direta, e qual destes sistemas de distribuição de energia seria o predominante. Por um lado, a corrente alternada oferecia a oportunidade de transferir eletricidade de maior potência e maiores distâncias. Por outro, a potência baixa tornava a corrente alternada mais segura, além do fato dos cabos, na época, serem os únicos a poderem ser enterrados.

Conforme o combate se escalava, Edison e o engenheiro Harold P. Brown foram responsáveis pelas execuções de vários animais, para desacreditar seus rivais. O resultado culminou com Edison auxiliando na invenção da cadeira elétrica, recomendando não só o uso da corrente alternada, mas também de um gerador da empresa Westinghouse.

No entanto o resultado final foi favorável à corrente alternada. O desempate foi a presença dos transformadores, resultantes da pesquisa de Tesla, permitindo a diminuição de potência da energia, que proporcionou a descoberta de outros usos da eletricidade dentro dos lares, na época limitado ao uso para iluminação.

Narrando essa história, chega ao Brasil o filme “A Batalha das Correntes” (The Current War). O longa é o terceiro filme do diretor texano Alfonso Gomez-Rejon, antecedido por “Assassino Invisível” e “Eu, Você e a Garota que vai morrer”, e traz um elenco de peso: Michael Shannon (como George Westinghouse), Benedict Cumberbatch (como Thomas Edison), Nicholas Hoult (como Nikola Tesla), além de contar também com os talentos de Katherine Waterston e Tom Holland.

O longa é bem diferente dos demais dramas de época, ainda mais quando retratam eventos reais. O principal fator se dá em suas tomadas: a forma como a câmera se posiciona e move em várias cenas, preferindo sequências que traduzem mais intensidade do que foco nos vestuários e aparências. Outra diferença se dá na música: é comum que ao retratar eventos de outros períodos históricos, esta se aproxime do composto na época e lugar. Desta vez, há uma aproximação muito mais da música pós-minimalista atual, até mesmo contando com a presença de uma composição de um compositor deste estilo – Max Richter, que difere consideravelmente das obras de 1880.

Ainda assim, o filme privilegia autenticidade em seus sets e vestuários. E principalmente na iluminação: para reforçar a sensação da revolução das lâmpadas incandescentes, em um um primeiro momento é filmado apenas com iluminações naturais, e conforme a presença desta se torna mais onipresente, vai transitando para uma iluminação menos autêntica, mas mais fiel ao estilo da produção.

Há de se destacar as atuações: Cumberbatch traduz a intensidade de um Thomas Edison polêmico, que arrisca tudo para sair por cima, incluso sua moral. Por sua vez, Michael Shannon rouba a cena, trazendo às telas um Westinghouse gentil e preocupado com o bem estar geral ao seu redor, o oposto de um dos personagens mais famosos que retratou – General Zod em “O Homem de Aço”. Já Tom Holland, faz um Samuel Insull inexperiente, jovial e determinado, um bom reflexo de seu papel como Homem-Aranha. Nicholas Hoult faz um Tesla excêntrico e um tanto arrogante, porém interessante.

Um ponto fraco são as liberdades artísticas em relação à história. Em primeiro lugar, o papel de Nikola Tesla é consideravelmente diminuído, sendo que ele foi o pivô deste conflito, tendo em vista que foi o responsável pelo desenvolvimento de uma forma prática de conversão de potências da corrente alternada.

Outro motivo que tornou Tesla um elemento de tensão foi o fato de após ser ora explorado, ora ignorado, desistiu e tentou criar a própria empresa, e depois de ter problemas com investidores e de sabotagem de seu antigo empregador, acabou por trabalhar para Westinghouse. Além disso Edison não se daria por satisfeito, e mesmo anos depois continuaria a desacreditar o cientista sérvio, resultando que este nunca mais conseguiria levar para frente suas teorias – some-se a isto também uma dose de xenofobia.

Também existem várias patentes de cientistas empregados, cujo crédito foi tomado totalmente por Edison. O filme retrata tala atitude apenas com poucas linhas de diálogo, e logo tenta justificar, ignorando o comportamento ganancioso e arrogante do inventor.

Porém, o principal problema da produção é seu roteiro. Em primeiro lugar, em vários momentos, este é confuso. Em segundo, o ritmo é inconstante, sendo que nem sempre o respeita a trama. Essa soma faz com que o espectador encontre-se perdido em alguns acontecimentos.

“A Batalha das Correntes” é um bom filme, porém não tão à altura de seus atores. Para quem gosta de história, é interessante – ainda que pudesse haver um respeito maior pelos fatos como aconteceram. Para fãs dos atores principais, é um banquete, porque estes brilham como nunca.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias