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Crítica: A Escolha


Criar uma criança sem ajuda é uma tarefa homérica. Porém é parte da realidades de várias mulheres, as quais, em sua maioria, contam apenas com o pai em finais de semana. Nossa sociedade permite que alguns homens continuem despreparados para serem pais, mesmo depois do nascimento da criança, ou os olha com menos rigor do que as mulheres engravidadas por estes.

É tão oposta a reação aos homens, que quando um pai solteiro aparece, as pesoas os veem com admiração e até matérias são escritas sobre eles. O mesmo não pode ser dito das mães solo, vistas como irresponsáveis, e de outras maneiras cuja linguagem não se encaixaria bem nessa crítica.

“A Escolha” (Take it or leave it / Võta või jäta) se aproveita desta dicotomia para inverter os papéis. No filme, Erik (Reimo Sagor) se vê em uma grande encruzilhada, quando descobre que não só sua ex-namorada Moonika (Liis Lass) estava grávida, como já está em trabalho de parto. Ele mesmo só consegue chegar ao hospital no fim do dia, pois seu trabalho era longe. Sua ex, no entanto, não se sente preparada para cuidar de um bebê, e junto com a depressão pós-parto – transtorno muito comum após a gravidez – não quer ficar com a criança, a qual Erik decide criar sozinho.

A produção tem personagens muito bem escritos, com motivações claras. Erik, por exemplo, sabemos o motivo de ele ser agressivo, dada sua relação com seus pais, que sempre o trataram como o irmão irresponsável. Moonika tem claros seus motivos para não criar seu bebê, pois quer terminar seus estudos, e o temperamento de seu ex beira o abusivo, sendo que manter uma criança deste homem, significa mantê-lo por perto, já que ele quer se envolver na vida da filha.

Apesar de deixar evidentes as motivações dos protagonistas, por tratar de amadurecimento e paternidade, o filme também expõe claramente as mudanças de Erik, do jovem impetuoso e bruto ao responsável e cuidadoso pai. Também vemos um pouco da mudança de sua família em relação ao fato dele ter uma filha, o que faz com que deixem de vê-lo como irresponsável.

Embora a trama seja interessante, o filme tem dois problemas centrais: em primeiro lugar, parece colocar Erik em um pedestal, mostrando Moonika como irrascível, negando seu “instinto” materno, e poderia ter exposto melhor as ações irresponsáveis dele com suas parceiras, que as levam a romper com ele, pois na realidade as mulheres que abandonam suas famílias têm motivos mais complexos, em sua maioria. Em segundo lugar, as atuações do protagonista e sua ex são um tanto sem expressão, com alguns dos personagens secundários, em particular a segunda namorada de Erik, sendo bem melhor atuados que o casal principal.

Ainda assim, o longa sabe usar muito bem sua fotografia, com uma boa narrativa visual, boas tomadas para mostrar o íntimo dos personagens às vezes sem usar palavras. A trilha é quase indelével, mas com a procura por um realismo justifica a forma como é utilizada.

“A Escolha” é indicado para quem gosta de dramas, pois tem uma história bem escrita e personagens bem desenvolvidos. Além disso, também é bom para quem planeja ter bebês, a fim de acompanhar todas as mudanças drásticas que uma criança, em particular nos primeiros estágios da vida, causa.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming, a convite da Elite Filmes.