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Crítica: A Esposa


Suponhamos o seguinte cenário: uma artista (mulher) tem seu talento descoberto por um homem (seu futuro marido). Influenciada por ele, ela amadurece e desenvolve seu estilo próprio, porém pelo machismo da sociedade, nunca terá sua obra propriamente reconhecida, mesmo que genial. Para isso, este homem, agora seu marido, servirá como o assinante de sua obra. O processo dura tanto tempo, que ele começa a acreditar na ilusão, e abusar de seu status.

Esta é a história de várias artistas durante a história da arte. Na literatura podemos citar Colette, escritora da série “Claudine”, cujo filme inspirado em sua vida foi lançado no ano passado. Nas artes plásticas, Margareth Keane, que na luta para recuperar o domínio de sua obra, é humilhada por um júri, e até mesmo obrigada a pintar diante deste. E na música, de certa maneira Clara Schumann, que mesmo com o marido realmente compondo, teve parte de sua obra assinada por ele para que fosse publicada.

E esta é a narrativa do filme “A Esposa” (The Wife), dirigido por Björn Lennart Runge, e estrelado por Glenn Close e Jonathan Pryce. Quando Joseph Castleman (Pryce) é indicado para o Nobel, as atitudes em relação a Joan (Close), sua esposa, começam a levantar tensões há muito reprimidas. Para piorar a situação, um repórter tenta explorar cada ponto fraco em busca de informações para criação da biografia polêmica, e rentável de Joe.

É um filme que não opta pelos caminhos simples. É fácil ao criar uma história fictícia, mostrar o marido como um vilão, até porque em vários dos casos acima citados, ele agia tal qual. Seria fácil explorar tensões escancaradas e demonstrar apenas as consequências diretas deste conflito.

Porém, “A Esposa” explora as tensões veladas, e suas consequências de longos anos guardadas. Demonstra como todos são afetados por essa decisão: como o marido, usa a baixa autoestima para justificar suas ações, mas ao mesmo tempo mostra como essa situação alimenta essa baixa autoestima. E desta maneira também escolhe outro caminho mais complexo: o de não justificar o marido, não deixando que o discurso que ele se utiliza seja o próprio do filme, mas mostrar assim como ele sofre e está errado em suas ações.

Também mostra como o peso disto tudo é ainda maior para Joan, que vê sua obra não ser reconhecida, até mesmo por quem mais deveria fazê-lo. Ela está em uma sociedade que a ignora, e tem um marido mais preocupado com seu próprio ego, do que com sua esposa. Por sua vez, aguenta estoica – por anos, sempre comedida e pelo bem maior -, enquanto o marido pode se dar ao luxo de cometer excessos, por seus sofrimentos. Desta maneira, o longa é um estudo complexo das relações humanas, particularmente das relações de gênero.

O filme não conseguiria atingir estes pontos sem excelentes atuações. Em particular de Glenn Close: a atriz veterana consegue trazer às telas toda a gama de expressões vividas e, principalmente, reprimidas. Sua atuação traz à tona toda a intensidade necessária do papel, sem deixar cair em exageros. Jonathan Pryce, por sua vez, faz bem o marido cuja percepção ultrapassou o verdadeiro papel na obra da mulher, e se embebedou com a sensação do sucesso. Um crédito extra merece Christian Slater, cujo papel como um jornalista ambicioso consegue trazer o lado predatório da mídia, e de como certos profissionais da área podem deixar suas ambições passarem sua ética.

Quanto aos aspectos técnicos, tanto fotografia, cenografia, e música têm seu papel na narrativa, e todas estão sujeitas a reforçar o discurso do roteiro. O uso das cores, que nos flashbacks são mais vivas, com tons mais quentes, enquanto no presente reinam cores acinzentadas e apagadas; a mudança de planos em momentos chave, e até mesmo o uso de câmera manual de maneira a tremer com a cena nos momentos de maior tensão. Já as transições harmônicas, de instrumentação e até temáticas, fazem da música tão plástica quanto fotografia.

“A Esposa” apesar de ter como ponto central os problemas de gênero no mundo da arte, explora as relações de gênero no âmbito familiar, e algumas de suas consequências. Mas, mais do que apenas uma discussão de gênero, é um excelente filme, dirigido de modo magistral, com boa música, um roteiro assustadoramente real, e com atuações impressionantes.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias