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Crítica: “A Música da Sua Vida”


“A Música da Sua Vida” (Final Report / Zárójelentés) é o novo fruto da parceria entre o diretor húngaro István Szabó e o ator austríaco Klaus Maria Brandauer, a mesma dupla responsável pelo clássico, e vencedor de Oscar, “Mephisto” em 1981.

O filme segue a história de Stephanus Emil, um cardiologista em Budapeste que é aposentado compulsoriamente quando seu hospital é fechado durante uma fusão de redes de hospitais. Perdido, encontra um novo rumo como clínico geral de sua cidade natal no interior da Hungria, porém sua necessidade de fazer as coisas de maneira correta e sua amizade com a professora de música local, colocam-no em conflito com o ambicioso e controlador prefeito local, e junto com a boataria típica de cidades pequenas, a vida de Stephanus, bem como daqueles que o cercam, tornara-se um inferno.

István Szabó novamente traz uma discussão sobre o conflito entre homem e política, na qual a arte tem papel fundamental. Este tema também é abordado em “Mephisto”, mas, curiosamente, o filme é um contraponto daquele: enquanto no posterior nós vemos a reinterpretação do Fausto na figura do artista que vende a alma para uma figura maligna (no caso, o nazismo), em “A Música da Sua Vida” ocorre o exato oposto, quando o personagem resiste bravamente às tentativas de suborno e de calúnia dos elementos “malignos”, seguindo sempre sua consciência.

Enquanto em “Mephisto” vemos o cinema como arte central, “A Música da Sua Vida”, por sua vez nos traz a ópera e o canto mais abrangentemente, e a presença onipresente deste na vida dos personagens. Doutor S, como o protagonista é chamado durante a narrativa, é um profundo amante desta arte, além de um cantor hábil, casado com uma cantora famosa de Budapeste, e se torna amigo da professora de música local.

Aliás, em simbologia, o longa bebe em várias fontes, além das músicas: em primeiro lugar, o nome do protagonista, Stephanus, é o mesmo de dois santos da igreja católica: um mártir que é caluniado pelos judeus, e posteriormente apedrejado por suas crenças cristãs, e Santo Estevão da Hungria,  uma figura importante por ser o primeiro rei da região a aderir ao cristianismo, além de grande devoto. São claros os paralelos entre o doutor e o primeiro, porém o segundo é inevitável não comparar, sabendo a importância deste na história húngara, mesmo que seu símbolo seja velado.

Curiosamente, a obra também que está disponível no Cinema Virtual, se inspira na lenda de Tannhäuser, um Minnesinger – forma de menestrel germânico – que é raptado pela deusa Vênus, e passa um ano em seu domínio venerando-a, e ao retornar ao mundo se arrepende de abandonar seu cristianismo pela deusa grega. Por sua vez, no caso desta influência, é inversa: Tannhaüser se vê num paraíso de prazeres, enquanto Stephanus só encontra dor, porém o resultado é que ambos se arrependem de suas escolhas, e no caso do doutor, também de sua relação com a música.

Para os amantes da música clássica, a produção apresenta várias obras, em particular óperas, que aliás não têm função apenas de enfeite ou reforço dramático: em vários pontos, a letra do que é cantado ao fundo, ou a cena da ópera apresentada, é um elemento fundamental para entender a metáfora da situação, e desta forma compreender melhor a emoção dos personagens. É claro que as cenas das peças apresentadas também são uma forma de István Szabó conectar seus trabalhos como diretor cinematográfico e operístico.

Uma das poucas críticas que talvez caiba fazer, refere-se a dois pontos: a história por momentos se torna um tanto confusa, e acaba por se perder alguns momentos.  E o áudio, em  algumas cenas, que aparentemente foram redubladas, está ligeiramente fora de sincronia, e isso pode gerar um incômodo.

“A Música da Sua Vida” é um excelente filme para amantes de ópera e para quem aprecia a obra do diretor, e em particular “Mephisto”, seu trabalho mais conhecido no ocidente, o qual é obrigatório assistir.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming, a convite da Elite Filmes.