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Crítica: Armas em Jogo


Guns (Armas) Akimbo: é o termo para usar uma arma de fogo em cada mão, geralmente do mesmo tipo. Essa ideia surge, na verdade, com as primeiras pistolas, de maneira que estas tinham que ser recarregadas a cada tiro, e o ato era demorado, sendo mais fácil carregar várias já carregadas.

Com a invenção dos primeiros revólveres, isso se manteve, de forma que mesmo tendo mais de uma bala carregada, eles normalmente tinham limite de até seis balas em cada arma, por isso é fácil ver em filmes de faroeste pessoas carregando mais de um.

Por sua vez, com a criação dos cartuchos e posteriormente dos pentes de munição e armas semiautomáticas a ideia de se usar duas armas se tornou completamente inútil, pois as armas normalmente têm mais precisão se atiradas usando duas mãos, além de que complica desnecessariamente na hora de carregar, sendo que hoje em segundos se trocam os pentes.

No entanto, isso não diminuiu o estilo que vinha com isso: começando com os faroestes no meio do século passado, o uso de duas armas sempre representa o personagem “machão” e heroico, ou o vilão que não tem nada a perder. John Woo, apesar de posterior ao ápice dos westerns, populariza essa visão das armas akimbo, e acaba influenciando o mundo dos games, com a primeira aparição num jogo de tiro dessa prática nos anos 90 em “Rise of the Triad” e “Marathon”, lançados ambos no mesmo dia. Desde então filmes como “Matrix” e “Equilibrium” reforçaram estas ideias no cinema, enquanto jogos como “Max Payne” no mundo dos games.

Curiosamente, o circulo se completa com o filme “Armas em Jogo” (Guns Akimbo), pois são claras as influências dos games na produção, desde a origem do personagem central – um programador de jogos portáteis – até sons e outras referências diretas, além do próprio estilo de ação que lembra um “Max Payne” sob efeito de drogas, e, portanto, também as obras de John Woo, grande inspiração deste jogo.

Apesar de não faltar ação, o longa é um tanto derivativo. Ele parece uma mistura de “Gamer” (a ideia da perseguição), “Corrida da Morte” – onde um injustiçado deve participar de um reality show homicida e ainda derrubar aqueles que o organizam -, e “O Procurado”, com manobras impossíveis usando armas.

Também se aproveita da onda nostálgica, que recentemente anda varrendo a cena dos videogames – mais uma conexão com estes. O filme tem inspiração nos ambientes neon presentes em alguns títulos de ação da década de 1980, a trilha é repleta de sintetizadores e sons 8-bits e carrega influências das de John Carpenter, além de utilizar músicas pop do período, como de “You Spin Me Round (Like a Record)” da banda Dead or Alive.

Daniel Radcliffe está completamente diferente do papel que lhe marcou a carreira, sendo um anti-herói atípico, forçado a sobreviver numa situação completamente absurda. Recentemente, para se desassociar da imagem de bom moço construída com a série Harry Potter, ele vem assumindo mais papéis opostos a esta, o que é bom, pois os faz muito bem. Samara Weaving também atua decentemente, e mesmo sua personagem sendo ligeiramente derivativa da Arlequina da DC, não é uma cópia desta.

“Armas em Jogo” é para quem gosta de comédias de ação esdruxulas, e também para quem prefere filmes com mais estilo que verossimilhança.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming, a convite da Cinecolor do Brasil.