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Crítica: Contágio em Alto Mar


Acredito que a percepção que cada pessoa tem a respeito das coisas depende de suas próprias experiências. Talvez, em algum outro momento “Contágio em Alto Mar” (Fever Sea) não parecesse tão impactante, mas devido ao momento delicado pelo qual o mundo passa, sua trama ganha contornos bem mais assustadores.

Dirigida e roteirizada por Neasa Hardiman , a produção irlandesa premiada no DaVinci Film Festival (2020) como Melhor Filme e indicada para mesma categoria no Sitges – Catalonian International Film Festival (2020) se passa basicamente em um único cenário: uma traineira – barco de pesca -, cuja tripulação é infectada por uma espécie de parasita desconhecido que pode levar à morte em horas.

O principal sintoma da moléstia é o aumento gradual e constante da temperatura corporal, inicialmente confundido com a chamada “febre do mar” (título original do filme), que é resultado da limitação das horas de sono – devida a trabalhos em turnos – que pode causar inúmeros problemas físicos.

Quem descobre a causa do problema é Siobhán (Hermione Corfield), jovem estudante que, para conseguir concluir seu doutorado, precisa realizar uma espécie de estágio – o que inclui a análise de qualquer anomalia na carga pescada e um breve mergulho para inspeção das profundezas ao redor da embarcação.

É interessante notar a disparidade entre o ceticismo da personagem, que procura uma razão cientificamente plausível para tudo, e as superstições que parecem inatas à maior parte da tripulação – como a crença de que o fato de Siobhán ser ruiva traria má sorte durante a viagem ou que um inesperado encontro com baleias poderia trazer sucesso.

Assim como é espantoso notar o quanto a realidade se assemelha à ficção (o longa foi produzido em 2019, antes da pandemia global de Covid-19), com personagens pregando com naturalidade o negacionismo, e crendo não haver motivos para se manterem em quarentena enquanto não se descobre o que de fato está acontecendo.

A sequência que traz um diálogo sobre o quão rápida seria a progressão de contágio / óbitos, caso a embarcação chegasse ao porto e os tripulantes tivessem contato imediato com os habitantes da cidade mais próxima chega a dar um aperto no peito, tal a semelhança com o que se passa no mundo atualmente.

Embora classificado como terror – e até apresente alguns elementos eficientes para isso -, conforme a narrativa avança, “Contágio em Alto Mar” acaba enveredando para o drama, com um aumento na profundidade do que é mostrado em tela. E isso faz com que o longa – que está disponível no Cinema Virtual – consiga entregar um resultado até mais atrativo.

Vale conferir, mas deixando claro que pessoas mais sensíveis podem se sentir desconfortáveis, tanto com certas imagens, quanto com parte do texto declamado pelos personagens.

por Angela Debellis

*Título assistido via streaming, a convite da Elite Filmes.

*Texto originalmente publicado no site A Toupeira.