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Crítica: Dor e Glória


Melancólico e reflexivo, “Dor e Glória” (Dolor Y Gloria) denota uma característica importante sobre o quanto o mundo dá voltas, e como a vida muda de uma hora para outra: de repente estamos no topo, seguros e realizados, e num piscar de olhos estamos tentando reencontrar a nós mesmos.

O filme de Pedro Almodóvar é uma autoficção da vida do próprio diretor e conta a história de Salvador Mallo (Antônio Banderas), um cineasta que está há anos afastado de sua profissão, por problemas de saúde física e emocional que ele não consegue resolver. Em seu próprio declínio, encontra-se em uma série de reflexões sobre a sua infância, sua vida pessoal e seu trabalho.

Almodóvar construiu seu longa baseado em fatores de uma autobiografia, utilizou diversas ligações sobre as suas relações afetivas, memórias e experiências, fazendo com que o personagem, de certa forma, fosse o seu espelho. Algumas ações de Salvador foram unicamente incluídas no filme, sem relação com a realidade – como o uso de heroína, que há princípio o personagem usou como forma de curiosidade, e logo depois passou a utilizá-la como um método para se livrar das dores de cabeça e muscular que sentia.

A trama é basicamente voltada para o que acontece após a glória: ela retrata de fato a decadência a que o ser humano pode chegar após realizar feitos de grande sucesso. É possível perceber o quanto o personagem se encontra inerte em seus próprios pensamentos, em suas próprias frustações, ele basicamente só vive, mas não encontra o porquê das coisas.

A produção inteira refere-se muito às auto reflexões, como relacionamentos que muitas vezes podem não acabar bem e ficamos com aquela sensação de inconclusão; ou até relacionamentos familiares: Salvador teve a oportunidade de uma conversa com a mãe, um tipo de acerto sobre o passado deles, que naquele momento pareceu estar resolvido, mas quatro anos após sua morte, ele admitiu que esse era um dos motivos pessoais que o impedia de voltar a trabalhar.

A mente humana é uma caixinha cheia de surpresas, ela pode pregar peças, fazer com que você acredite em algo que ela mesma cria, e isso muita vez domina mentes de pessoas incríveis, que ficam presas em si mesmas, por não conseguirem destrancar um cadeado que sua própria imaginação inventou.

por Victória Profirio – especial para CFNotícias