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Crítica: A Forma da Água”


A forma da água (The Shape of Water) é uma obra-prima. O tipo de filme que nos poucos instantes projetados na tela, já se torna um provável clássico que será lembrado nos próximos anos, juntamente a outros com imensa delicadeza e trama bem construída.

Para vê-lo, é necessário vestir uma capa de espectador sonhador. Há nele algo de fortemente nostálgico para aqueles que cresceram amando o cinema dos anos de 1950 e 1960, os musicais, a melancolia e beleza do jazz. É possível que A forma da água dialogue com uma profundidade dolorosa, chegando às mais doces e tenras memórias que você tem. No meu caso, o longa possui em seus cantos muito da minha relação com meu avô, a sua paixão pela música, as várias tardes conversando sobre cinema, de dividir esse período histórico com uma nostalgia de um tempo que não vivi. Esse rememorar, através da produção, foi tão forte que é válido mencionar essa sua capacidade de trazer experiências pessoais diversas, do espectador, para o filme.

A trama tem sua esquisitice maravilhosa: trata-se de uma fábula de amor com um toque de scifi. Elisa (Sally Hawkins) é uma jovem muda, entusiasmada com as pequenas coisas da vida e com dias sem grandes reviravoltas. A sua rotina é a de zeladora em um laboratório experimental secreto do governo. Lá, ela trabalha junto a Zelda (Octavia Spencer). A amizade de dez anos das duas se dá pelos turnos de trabalho, nessa profissão desvalorizada por entre os homens de grande nome do laboratório. É nesse contexto que Elisa conhece a criatura aquática (Doug Jones) que está sendo mantida no laboratório para estudos. Explorada e torturada, a criatura serve aos fins patriotas americanos na Guerra Fria, nas mãos cruéis de Richard Strickland (Michael Shannon). Diante desse abandono, a protagonista se aproxima aos poucos desse anfíbio humanoide e uma bela história de amor nasce entre as duas espécies.

O filme é dirigido pelo excelente Guillermo del Toro, um dos poucos diretores capazes de criar um universo próprio por meio das criaturas que desenvolve. Del Toro não concede limites à imaginação. Ver seus filmes é um presente. A forma da água possui a delicadeza da descoberta do fantástico que vemos em O Labirinto do Fauno. E traz uma ligação direta com os sentimentos mais comuns da vida humana: a solidão, o desejo de estar com alguém, a ajuda ao próximo, a solidariedade, e a capacidade de sonhar mesmo em um cenário grotesco.

O olhar o diretor dá às suas criaturas é de admiração e carinho. Se pensarmos que as referências principais do filme são Monstro da Lagoa Negra (Creature from the Black Lagoon, 1954) e A Bela e a Fera (1946), encontramos um contraste no tratamento da criatura. No primeiro, ela é um monstro que deve ser exterminado. No segundo, a Fera recebe uma segunda chance, expõe seu coração humano e conquista a mocinha. Além disso, sabemos que King Kong (1933) captura a jovem, sendo o amor algo impossível e a beleza só reside na figura da mulher. Em A forma da água, a personagem feminina tem total autonomia, é ela quem apresenta o seu mundo para a criatura. E, pela direção de Del Toro, é possível ver a humanidade profunda dessa criatura que sofre, que respiração como nós, que ama e que precisa ser protegida.

Com efeito, A forma da água é uma grande história sobre ser marginalizado socialmente. Todos os personagens possuem alguma dificuldade com a imagem que se têm deles e quem eles realmente são. A começar por Elisa: o filme nos mostra a sua vida pessoal, seus desejos, os seus sonhos. Conseguimos ver muito dela sem sequer ser necessário falar. O fato dela ser muda dá visibilidade a quem tem a mesma condição. O longa torna essa sua característica aquilo que, de fato, é: normal. É na criatura que Elisa encontra a máxima conexão com alguém. O seu modo de se comunicar é, finalmente, compreendido pelo outro.

A personagem Zelda também passa por isso. O seu casamento tem como base a mentira. Ela só pode expor o que realmente pensa para a amiga Elisa. Em casa, suporta a presença do marido, mentindo e fingindo o que não sente. Quando ela se vê diante da possibilidade de ajudar Elisa e a criatura, Zelda fala por si mesma. Além disso, tanto ela como Elisa lidam com o problema de ter que aturar qualquer situação absurda, como faxineiras, precisando ocultar o que pensam. E ainda tem o fato de que Zelda enfrenta o racismo.

Giles (Richard Jenkins), por sua vez, é homossexual e um artista incompreendido. A sua única família é Elisa, e tão somente na sua companhia ele pode ser quem ele deseja ser. Pelos outros, ele é visto de forma condenável e não encontra espaço para si mesmo. A esse grupo, soma-se a presença do cientista Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) que se opõe às decisões tomadas por seus superiores. Assim, A forma da água engrandece os desajustados, dá voz a cada um deles.

O trabalho do elenco é de grande riqueza. Sally Hawkins carrega a grande dificuldade que é atuar sem poder se expressar pela fala verbal. Ela é ideal para a personagem e faz com que acreditemos com facilidade em todas as emoções de Elisa. Não há outra atriz que faria de Elisa tão especial quanto Sally. O trabalho corporal e expressivo de Doug Jones como a criatura fornece vida e magia ao figurino. Juntos, temos dois personagens icônicos. Octavia Spencer também é cativante, dosa bem o humor do filme e faz de Zelda a melhor companheira que Elisa poderia ter. Richard Jenkins como Giles dá a doçura certa para o personagem e tem uma história admirável. Michael Shannon, por fim, faz um perfeito antagonista para a criatura aquática, reunindo muito bem todo o ódio e recusa pela espécie.

O romance, no filme, também se apresenta de modo muito cauteloso. Para pensar a relação entre Elisa e a criatura, é preciso destacar alguns pontos como a questão da linguagem, da imagem e do silêncio. Existe um ensaio do filósofo Merleau-Ponty que se chama A linguagem indireta e as vozes do silêncio. Nele, o autor demonstra como a linguagem se dá apenas visando o outro: não existiria comunicação se nós não falássemos considerando a recepção do outro quanto ao conteúdo. Quando alguém não entende o que dizemos, reformulamos nossas frases, tentamos alcançar o outro. No caso da linguagem de sinais, a palavra se dá pela imagem. Toda a nossa linguagem é um sistema bem articulado entre signo e significado. A linguagem também é a nossa marca de humanidade e pertencimento à cultura.

Em A forma da água, Elisa e a criatura se comunicam por gestos, por desenhos, por algumas palavras ensinadas da língua de sinais, e pela música. Isso nos lembra que o silêncio também fala. Na linguagem cinematográfica, uma cena silenciosa diz e muito. Força um impacto, seja ele trágico ou cômico. Mas a música é capaz de fazer o mesmo. Essa importância da linguagem no filme é mostrada não apenas no contraste inicial que poderia ter – e não há – entre humano e criatura, mas entre os demais personagens. Pois se a linguagem pode unir as pessoas, falando verbalmente ou não, ela também pode ser um modo de divergência e atrito.

Entre Elisa e a criatura, entre os personagens próximos da jovem, a língua é comunhão. Eles compram o valor imenso que a criatura tem para Elisa, e defendem o direito de proteção dessa criatura. Mas aqueles que abusam do poder, no laboratório, parecem falar um idioma diferente: falam de ciência não à favor da vida, mas pelo progresso e pela guerra.

Conhecemos aquela máxima de que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Isso se aplica bastante em A forma da água, porque mostra que imagem é forma de linguagem também: se analisarmos quadro a quadro, Guillermo del Toro fez de seu filme uma grande pintura. Sempre há muito do que se falar sobre uma imagem, principalmente quando estudamos obras de arte. Mas, assim como um gesto, a imagem em seu silêncio pode expressar mais do que um conjunto de frases que não conseguem alcançá-la por inteira. Esse é o mérito da produção: a imagem demonstra a magnitude do amor de Elisa e a criatura, sem que a palavra seja a única condição para que consigam se exprimir.

Por isso a direção, as cores escolhidas e a trilha sonora são participantes ativos do filme. Primeiro, há uma coreografia muito bem construída nos gestos dos personagens e na postura: Elisa encarna a posição das mocinhas da Era de Ouro, e isso está no modo delicado de andar, na posição dos pés entrelaçados ao se sentar. Tudo é construído por Del Toro como parte de uma grande coreografia que busca reencenar os filmes icônicos do Cinema.

As cores variam entre verde-água e azul por conta da referência à agua, mas o vermelho dá o tom de paixão à trama e, principalmente, os ambientes tem algo de antiquário: o apartamento de Elisa e o de Giles parece um grande apanhado de objetos antigos. Se lembrarmos o significado de um antiquário, é um grande reservatório de objetos recusados, às vezes obsoletos, que são belos por terem uma história para se descobrir. São como os próprios personagens, invisíveis aos outros, mas com uma beleza singular. Somado a isso, o trabalho de Alexandre Desplat enriquece as ligações do filme com o cinema clássico e o universo dos musicais, além de todo o ideário do amor romântico francês.

Deste modo, A forma da água é um filme que homenageia o amor, que reconta uma história universal a sua própria maneira. Guillermo Del Toro é um mágico que conduz, por meio dos detalhes, a concepção de um universo particular e belíssimo. É possível, no final do filme, provar a mesma sensação de emergir à superfície após residir horas envolvido na história de amor. Por isso o longa deixa resquícios ao sair da sessão e promove uma conexão forte com o ato de se sentar numa poltrona e dar um voto de confiança para uma fábula que será passada adiante.

por Marina Franconeti – especial para CFNotícias