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Crítica: Milagres do Amor


“Milagres do Amor” (Mucize 2 Aşk) é um drama turco com um grande potencial para agradar públicos diversos. Ao se deparar com a sinopse, logo acredita-se que é mais um daqueles filmes em que o amor matrimonial e os dramas do casal são ao principal foco, contudo há uma adorável surpresa.

A narrativa inicialmente é apresentada por meio das percepções de Mizgin (Biran Damla Yılmaz), uma mulher jovem de beleza excepcional que foi dada em casamento a Aziz (Mert Turak), homem com sérias limitações físicas em decorrência de uma doença que o afetou na infância. O pai da jovem havia entregue sua filha em matrimônio, como prova de gratidão pela bravura do pai de Aziz, que o salvou de uma emboscada.

Mizgin conheceu o noivo no dia do casamento e ficou devastada com o que o destino reservou para ela: como seu pai pôde prometê-la a alguém como Aziz? A jovem se amargurou, porém se abrigou na religião e decidiu que esta fora a sorte que a vida reservara para ela, então ela cuidaria de seu marido da melhor maneira possível e tentaria amá-lo.

Tentando fugir das adversidades enfrentadas por Aziz na vila em que moravam – que ia desde a escassez de recursos básicos ao preconceito extremo enfrentado pelo homem – o casal, com a ajuda do professor Mahir (Fikret Kuşkan), deixa o vilarejo de uma região árida e se muda para uma área costeira. O que eles não esperavam, é que apesar de se mudarem para um lugar mais agradável aos olhos, o preconceito os perseguiria.

A história é inspirada em acontecimentos reais, logicamente explorando as oportunidades para um encantamento, aqueles recursos que deixam o coração quentinho. Algumas cenas são encantadoras, como a primeira vez que Aziz vê o mar ou quando ele vai buscar Mizgin no trabalho com um lindo filhotinho. Outras são de partir o coração, como as sequências em que Aziz sofre bullying das crianças da cidade – aliás, crianças conseguem ser extremamente más quando reproduzem comportamento de adultos insensíveis.

O diretor e roteirista Mahsun Kırmızıgül – que também é responsável pela trilha sonora, além de atuar – não deixou de criar laços nos pequenos detalhes, como nos olhares de espanto, no medo de uma criança ao encontrar Aziz pela primeira vez, na dor nos olhos do homem ao enfrentar as situações de preconceito cotidianas, na simplicidade e na força com que Mizgin defendia seu marido, nas suaves e sutis demonstrações de amor, o filme é recheado de deliciosos clichês. Outro detalhe que colabora com a experiência é o figurino simples que referencia os anos de 1960 e 1970, e as ambientações com cenários e locações adoráveis.

Como nem tudo são flores, há uma problemática em pensar que alguém é entregue a outra pessoa como forma de agradecimento, mas não podemos esquecer que estamos lidando com um episódio real na Turquia da década de 1960, e que acordos de casamento eram (e em alguns casos ainda são) firmados entre os pais.

Outro ponto desfavorável é que Mizgin na maioria das vezes está em segundo plano: mesmo que mais da metade do longa seja narrado por ela, em diversas ocasiões ela fica literalmente um passo atrás do marido, ainda sim entendo a necessidade de analisar o contexto histórico.

O filme apresenta diversos personagens com narrativas bem diferentes e todos eles se conectam e não ficam pontas soltas. Todos têm seus finais, felizes ou não. Na verdade, finais felizes demais, chega parecer fantasioso.

O último ato estreita a relação entre Aziz e seu professor, Mahir, o homem que representa uma figura paterna. É quem acredita, incentiva e impulsiona todo processo evolutivo de Aziz. Em parte dispensável, as narrativas se misturam e é adicionada uma pitada a mais de drama e sofrimento, um epílogo.

A produção é um daqueles singelos acalantos para o coração, talvez você chore, talvez não. Se você assistiu a “Milagre da Cela 7”, pode ser uma boa opção dar uma oportunidade a “Milagres do Amor”. Ah … tem um milagre mesmo, tá?

por Carla Mendes – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming, a convite da A2 Filmes.