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Crítica – Nona: Se me molham, eu os queimo


Ocasionalmente um filme borra a fronteira entre ficção e realidade. Este recurso é muito comum no gênero das filmagens encontradas (Found Footage) – “Bruxa de Blair” é o exemplo mais famoso do gênero – que por si é um dos subgêneros do terror. Também existem os mockumentary, que justamente são pseudo-documentários que tratam de assuntos às vezes plausíveis às vezes absurdos, mas como se fossem reais, na forma de documentários de fato.

E existem os títulos como “Nona – Se me molham, eu os queimo”, da diretora Camila José Donoso, onde alguns personagens levam os mesmos nomes de seus atores, suas filmagens em câmeras caseiras tomam um ar de produção doméstica convertida em longa, e não há marketing exagerado ao ponto de indicar a possível ficção.

Josefina Ramírez, avó da diretora, é a personagem homônima deste curioso longa. A vivaz abuela, que fazia Molotovs para uma milícia anti-Pinochet, incendeia o carro de um ex-amante (Eduardo Moscovis), e foge da capital Santiago para Pichilemu. Lá, incêndios começam a queimar a vila em que habita, e eventualmente começam a se espalhar para os arredores, mas sua casa está sempre intacta.

“Nona” é um filme estranho. Para o bem e para o mal.

Comecemos com o bem: as escolhas de câmera cumprem o dever de nublar as fronteiras entre real e ficção muito bem, em particular quando na trama, a neta, Camila – a própria diretora – visita Nona – apelido de Josefina. Outro fator que também torna mais dúbio é que no período retratado, intensos incêndios florestais de fato ocorreram em Pichilemu, e matérias televisivas reais foram usadas para aumentar o censo de realismo.

O longa alterna com filmagens profissionais para cenas mais dramáticas, ou mais emocionais, externas à realidade cotidiana, aumentando o drama, e se esvaindo um pouco do clima de obra caseira. Curiosamente, isso aumenta a dubiedade da questão central: Nona é apenas uma espectadora ou uma causadora dos incêndios? E se for a causadora, por que? Seria uma pirômana adormecida? Revivendo a glória de quando estava ativa na luta? Mas no fim, nunca sabemos se é ela, ou apenas o descaso do governo e/ou ações de outros interessados que a região queime.

Enquanto na parte das filmagens e dos pequenos toques de ambiguidade o filme brilha, ele falha no ritmo. Mesmo para um título mais artístico, a trama demora a engrenar e se desenvolver, e uma história centrada em uma personagem, demora para entender-se o que esta pretende de fato.

Mas, uma vez que compreendemos, fica divertido observar a personagem dissimulando e enganando as pessoas ao redor, sejam lá quais forem seus propósitos. É a partir deste momento que o roteiro se abre às possibilidades, e se torna mais compreensível e menos estático.

Uma das estreias de hoje nos cinemas brasileiros, Nona – Se me molham, eu os queimo” é para quem gosta de algo mais alternativo: seu ritmo é lento, sua trama às vezes não é clara. Mas ainda assim sua trama é interessante, e as conotações políticas – este crítico infelizmente não está inteirado da realidade atual chilena, e portanto não pode comentar – são bons motivos para assisti-lo.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming a convite da Vitrine Filmes.