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Crítica: Normandia Nua


Estamos vivendo um momento delicado na história da humanidade. Com a constante produção de gases do efeito estufa de maneira artificial, há um aquecimento global acelerado, que representa um risco extremo para a espécie humana. Um dos principais emanadores desses gases é a produção agropecuária, particularmente a de gado bovino.

Além disso também estamos em um momento de grandes e constantes mudanças na alimentação, pelo menos nos países mais ricos e desenvolvidos: com a descoberta de efeitos nocivos na ingestão de carne, além de uma mudança cada vez mais maior de pensamento, o número de pessoas que não se alimentam desta está crescendo constantemente.

Com ambos cenários, somados a outras questões da economia mundial, vemos um mercado agropecuário enfraquecido. Os grandes produtores pouco sentem essas mudanças, visto que várias vezes têm produções internacionais ou monopolizam terras. Porém, como ficam os pequenos produtores?

“Normandia Nua” (Normandie Nue), do diretor Philippe Le Guay, explora justamente este cenário. Tendo como foco a pequena cidade de Mêle-sur-Sarthe, na Normandia. Em meio a uma excruciante crise no mercado da carne, a cidade está envolvida em protestos tentando conseguir a atenção do governo. Por sua vez, o prefeito (François Cluzet) vê uma oportunidade única de chamar não só de chamar a atenção do governo, mas da nação, com a passagem de um fotografo excêntrico (Toby Jones) pela cidade cujo o estilo é único: ele fotografa populações inteiras nuas em suas paisagens.

Com uma premissa peculiar, o longa mantém um roteiro interessante, discutindo questões globais, como locais, e pessoais. Nas questões globais temos a discussão dos pequenos criadores de gado em frente aos problemas supracitados, também existe a idealização do campo, como demonstrado pelo conflito entre Thierry e sua filha Chloé. Nos problemas locais vemos os conflitos entre a própria comunidade, tanto nas questões de como protestar, e se a foto será feita ou não. E por fim os conflitos pessoais, que variam desde tensões conjugais, até velhas rixas de família envolvendo a divisão de um campo.

Apesar de abordar tantas temáticas e conflitos, a produção consegue trazê-los às telas de maneira bem equilibrada, de maneira que podemos acompanhá-los sem nos perder. Ainda que algumas resoluções podem soar forçadas e em alguns casos pouco verossímil, o filme o faz de uma maneira que consigamos acreditar nelas.

Outro aspecto importante são os cenários. Os locais em si são personagens dentro do filme, e têm suas próprias histórias e subtramas. O principal deles, e um belo exemplo de como funciona isto é o Champ Cholet (Campo Cholet), o local pelo qual o fotógrafo Newman fica interessado em sua foto: é foco central do conflito do longa – a foto polêmica –, mas também é palco de um conflito entre duas famílias, que data dos dias da Primeira Guerra, ou mais.

Para captar a importância dos cenários, a fotografia é bem rebuscada, em particular no uso das cores e das tomadas panorâmicas, dando destaque às características visuais principais de cada cenário. A trilha sonora consegue destacar bem as diversas situações, e usa de diversos estereótipos, desde músicas emotivas até temas dignos de ficção cientifica dos anos 1950. Isso normalmente seria um problema, porém é muito bem conduzida.

As atuações em sua maioria são medianas: ou muito exageradas, ou rígidas demais. Apesar disto, merecem destaque dois atores: François Cluzet, como o prefeito Georges Balbuzard, que consegue fazer um bom equilíbrio dos momentos trágicos e cômicos, traduzindo bem a situação que este personagem se encontra; e Toby Jones, como o excêntrico fotógrafo Newman, que ainda que sua atuação seja um tanto exagerada, é completamente plausível com o personagem criado de maneira exagerada.

O principal problema, no entanto, é sua discrepância tonal. O filme não sabe se será uma crítica social, ou uma comédia para agradar todos os gostos. Com isso acaba por não conseguir dar a devida importância aos tópicos sérios que queria apontar, levando às vezes a desacreditá-los.

Ainda assim, “Normandia Nua” é divertido, e apesar de abordar temáticas sérias, mantém um clima cômico. Também é comportado apesar do título e do país que vem, com pouca nudez completa e aberta. Vale a pena assistir, particularmente fãs de comédias inteligentes.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias