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Crítica: “O Mistério de Frankenstein”


Existem poucas obras de terror tão influentes como Frankenstein. O livro de Mary Shelley foi seminal para o gênero, em particular para as vertentes mais voltadas ao horror e à ficção cientifica, inspirando inúmeros escritores depois a explorarem as fronteiras das ciências de seus períodos, dado que a obra da escritora britânica era inspirada pelas descobertas relacionadas ao galvanismo – ciência em voga na época que estudava as ações das correntes elétricas sobre órgãos vivos.

A adaptação da obra para o cinema em 1931 também é responsável por imortalizar o monstro na cultura popular, em particular, criar uma imagem bem específica deste, de forma que hoje é quase indissociável do personagem: se você a primeira coisa que pensa ao falar sobre a criatura é um ser consideravelmente alto, com pinos no pescoço, que se move de maneira trôpega e que se comunica por grunhidos, isso é a influência do filme de James Whale – o original, ainda que alto, não possuía pinos expostos, e mesmo que trôpego era ágil e veloz, além de ser consideravelmente eloquente.

Até hoje, vários tentam recriar o impacto destas duas obras no cinema, com relativos graus de sucesso.

O diretor e roteirista grego Costas Zapas por sua vez foi mais longe que as demais tentativas, criando não só um novo livro – “Frankenstein REC” – que faz uma releitura do original, mas adaptando de maneira conjunta esta obra e a de Mary Shelley no filme “O Mistério de Frankenstein” (Frankenstein by Costa Zapas).

A trama é bem diferente do que se espera: numa cidade cujo nome nunca é revelado, uma companhia de teatro chega para apresentar uma adaptação de “Frankenstein” – o livro original –, no entanto quando uma jovem repórter se apresenta para entrevistar o elenco, coisas estranhas começam a acontecer, enquanto ela desenterra os mistérios da trupe – que aparenta ser a mesma desde 1818, e a primeira a apresentar uma adaptação da obra para fora dos livros.

“O Mistério de Frankenstein” tem uma estética estranha, porém suas referências são claras: o longas usa muito as técnicas e práticas do movimento expressionista alemão do começo do século XX – que por sua vez também foi a base da primeira adaptação cinematográfica de Shelley – porém com sensibilidades modernas.

Utiliza de tons de sépia, algo mais puxado para o amarelo do que o marrom, numa clara aproximação com o cinema antigo; atuações mais exageradas, em particular nas expressões faciais; certos ângulos de câmera e o uso de sombras; dentre várias outras técnicas.

Essa aparição do Expressionismo Alemão gera certa atmosfera não só gótica, como etérea e onírica, quase desencaixada da realidade, e pode incomodar o espectador que não estiver acostumado a isso. Por sua vez, esta atmosfera é ainda mais reforçada pela forma misteriosa e estranha com que os personagens agem e falam, com seus diálogos crípticos e atitudes exageradas. É claro que isto é proposital, porém se não estiver atenta, a impressão que passa à plateia é não de uma atitude deliberada, mas acidental.

Este último ponto pode acabar sendo um problema, saber diferenciar os erros acidentais das atitudes propositais, em particular nas atuações. É difícil saber se um momento que o personagem age de maneira exagerada como algo pedido pelo diretor, e até mesmo quando é este o caso não é difícil encontrar sequências em que a cena acaba parecendo de fato mal feita.

Também vale destacar a constante exposição de faces monstruosas no cenário durante quase toda a duração do filme, aparecendo em mais de uma hora em uma produção que dura pouco mais que isto, tornando algo que poderia ser potencialmente profundo e indicativo de algo interessante, em algo que parece ser jogada sem cuidado ou reflexão, apenas para tornar o clima sinistro – no que falha, pois a imagem deixa de ser incômoda com o excesso de exposição.

Ao fim, “O Mistério de Frankenstein” (que está disponível no Cinema Virtual) para quem gosta de filmes estranhos e góticos, com tramas intrincadas e confusas cheias de símbolos e metáforas, é um prato cheio. Mas há de ser apreciado com muito mais cautela pelo fã “comum” de terror.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming a convite da Encripta.