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Crítica: O Muro


Nas Forças Armadas estadunidenses existem dois tipos de designações para aqueles que estão desaparecidos durante algum conflito: DUSTWUN – duty status, whereabouts unknown traduzido livremente como “ainda em cumprimento do dever, paradeiro desconhecido” – é a designação enquanto ainda se investiga e se existe a crença num possível reaparecimento, seja por resgate ou por se descobrir uma deserção; o segundo tipo é o MIA – Missing in Action, “desaparecido em ação” numa tradução igualmente livre – que é designado apenas pelas entidades competentes, e geralmente é dado quando todas as possibilidades de confirmação (seja de vida ou morte) são esgotadas.

Apesar de não se aplicar necessariamente a desertores, nos anos recentes certo preconceito se acumulou ao redor daqueles que receberam a designação de DUSTWUN e reapareceram. Isso se deu em particular da caçada pelo soldado americano Bowe Bergdahl, que abandonou seu posto e tentou fugir do Afeganistão, o que resultou na sua captura pelos Talibãs e eventual resgate cinco anos depois, por fim recebendo uma dispensa desonrosa do exército.

A história de Kenny (Shane Dean) tem semelhanças com a de Bowe, sendo capturado por afegãos, resgatado, e recebendo uma dispensa desonrosa. Se ele tentou fugir de seu posto, nada sabemos, mas uma coisa é certa: as marcas da guerra e de sua tortura ainda flagelam sua mente, levando a escutar vozes no rádio ordenando-o a construir um muro no meio do deserto do Arizona para proteger a entrada de alienígenas ruins – no caso não se sabe se são literais vindo do México, ou seres espaciais.

Por sua vez, Marta (Crystal Hernandez), tem um análogo à situação de alguns DUSTWUN: ela abandona seu país de maneira ilegal, se mantendo fora de vista de autoridades que desejam que ela se mantenha onde está. A imigrante é uma das várias ilegais que entra diariamente nos EUA para conseguir uma vida melhor, vinda das regiões mais pobres do México, e neste caso em particular para conseguir dinheiro o bastante para a cirurgia do filho, que é impossivelmente cara para os padrões de onde veio.

O caminho dos dois protagonistas de “O Muro” (Dustwun) se cruza quando durante sua jornada para chegar a San Diego, Califórnia, Marta é salva por Kenny tanto da desidratação, quanto de um ataque de cascavel. A partir daí uma amizade improvável e estranha se desenvolve entre estes dois que sequer compreendem algo do outro, além do fato de serem humanos.

A trama é um tanto clichê – a mãe tentando salvar o filho de uma doença não especificada cuja cirurgia é cara demais para seu padrão de vida -, porém não é nesta que está o grande valor do filme, mas na forma como apresenta os temas que a circulam, e que são vários: doenças mentais e o preconceito relacionado a estas, as condições dos veteranos de guerra e da imigração ilegal nos EUA, solidão etc.

Porém, diferente de outros que também abundam em temáticas – e acabam por só citarem, ou representarem de uma maneira inadequada – este consegue analisar vários temas sem que se tornem ignorados. No caso, nem todos, é claro, são aprofundados (como a história anterior de Kenny no exército), porém os principais, como o preconceito aos portadores de algum distúrbio e a complexa e sofrida situação dos imigrantes ilegais mexicanos na América do Norte, são.

Outra qualidade em relação a outros filmes que também abordam suas temáticas é a humanização dos personagens: Todos eles têm falhas, se perdem, não sabem para onde vão e às vezes porque vão. Mesmo aqueles que têm função antagonística, não são vilões, mas apenas pessoas cumprindo seu dever. E até no caso do oficial Esposito (Andy Martinez Jr.) – que seria o principal “antagonista” – não é mau, porém tem uma visão que muitas vezes é forjada por imposições de seu ensino e círculos sociais, que distorcem a real natureza daqueles a quem ele se opõe.

“Disponível no CO Muro” é um filme devagar e poderia abordar com mais profundidade certos aspectos em especial os relacionados ao personagem Kenny. No entanto, é uma boa reflexão sobre a natureza da imigração, da solidão e das mazelas mentais, e para quem gosta de títulos que tratem seriamente estes temas, sem se deixar levar por estereótipos ou propaganda midiática, é uma excelente pedida.

Para assistir, o público pode acessar a plataforma pelo NOW ou escolher a sala de exibição preferida em www.cinemavirtual.com.br e realizar a compra do ingresso. O filme fica disponível durante 72 horas para até três dispositivos.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming a convite da Elite Filmes.