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Crítica: O Pássaro Pintado


“O Inferno são os outros.”

É assim que o filósofo Jean-Paul Sartre termina uma de suas peças, “Huis clos”, traduzida para o português como “Entre Quatro Paredes”. Apesar de parecer querer condenar aos outros, ou pelo menos dizer que nossa percepção sempre condenará mais os outros do que a nós mesmos, a citação tem outra intenção filosófica. Porém se tomarmos o sentido popularmente atribuído a esta teremos um excelente resumo do sinistro filme “O Pássaro Pintado” (Nabarvené ptáče / The Painted Bird), terceiro longa dirigido pelo tcheco Václav Marhoul.

O filme baseado no romance homônimo de Jerzy Kosinsky, narra a cruel odisseia do jovem judeu Joska (Petr Kotlár), o qual fora deixado pelos pais na fazenda da tia, pois com a ameça nazista se espalhando, seria melhor para escondê-lo. No entanto, quando esta morre e sua casa se incendeia, ele tenta voltar para casa. Durante esta jornada ele será abusado, vendido e quase morto diversas vezes, conhecendo o coração sombrio e depravado da região onde mora, se tornando tão cruel quanto quem o cerca.

“O Pássaro Pintado” é brutal. Não existe melhor outra palavra para descrê-lo, somente talvez cruel. Mas uma crueldade realista, que ainda que se passe nos tempos da guerra, é a mesma até hoje, ainda que muitas vezes velada. Não existem pessoas completamente boas, todos têm seu lado sombrio, até mesmo aqueles que lhes são gentis. Ainda que algumas vezes acabe por aumentar a crueldade dos aldeões e civis da guera, é um excelente lembrete que não só soldados são cruéis durante a guerra, e que mesmo fora desta, pessoas podem ser tão horríveis quanto durante estes períodos.

Mas talvez o mais interessante do roteiro é a transformação do protagonista. Ao começo do filme, ele não só fala como é relativamente gentil, porém com o progresso, seus diálogos começam a ser menores, até o ponto em que ele fica virtualmente mudo, e se tornando tão brutal e cruel quanto àqueles que o cercam – de certa maneira seguindo a ideia filosófica de Rousseau na qual, resumidamente, o homem é inocente, mas a sociedade o corrompe.

O fato de não usar trilha sonora, ou utilizar tão esparsamente que se perde ao meio das poucas cenas em que aparece, faz com que o drama e a tensão venham apenas das próprias sequências e atuações. Além disso, por não usar músicas de fundo, o filme reforça o impacto das próprias músicas que aparecem em cena.

O uso da fotografia também é muito bem pensado: muito da narrativa se deve às escolhas na fotografia, o que reforça a crueldade e brutalidade do roteiro. Além disso, outro reforço é a paleta de cores: apenas preto e branco.

A atuação de Petr Kotlár como Joska merece um grande mérito por carregar bem as transformações do personagem. O elenco secundário também entrega retratos ambíguos dos personagens que o protagonista encontra pelo caminho.

Um fato curioso sobre o filme é que faz uso da língua intereslava, uma mistura de diversas línguas de origem eslava, desta maneira tornando impossível definir o já vago local do leste europeu na qual a história se passa.

“O Pássaro Pintado” é interessante ainda que brutal, recomendado para quem tem estômago e corações fortes, além de ser uma demonstração da habilidade de Václav Marhoul como diretor e roteirista.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming, a convite da Elite Filmes.