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Crítica: Papicha


Reproduzindo uma dura e triste realidade da Argélia dos anos de 1990, o filme Papicha aborda uma história de resistência e coragem enfrentada por seis jovens argelinas, que lutavam pelo direito de escolha durante a guerra civil (1991-2002).

O fato de serem mulheres numa sociedade machista, onde o dever da mulher era apenas cozinhar e agradar o cônjuge, dificulta ainda mais essa luta, pois de um lado está uma pequeno grupo que se recusa a usarem o hijab (vestuário que toda mulher é obrigada a utilizar para se cobrir e não despertar o interesse dos homens), e de outro estão as que aceitam as imposições e decisões políticas – totalmente impostas por homens – e que atacam as outras mulheres que não acatam ou compartilham esse pensamento.

Analisando o contexto geral desse filme, é possível observar uma população totalmente dividida, que não sabe se organizar e fazer as revoluções de forma que as pessoas com os mesmos ideais se unam para somarem juntas. Nedjma (Lyna khoudri) desempenha com maestria o papel da jovem revolucionária, que ama a sua nação e luta com todas as suas poucas armas para mudar a realidade enfrentada pelas mulheres: elas não tinham voz, tudo era decidido por terceiros, como o que vestem, o que podem falar e até com quem irão se casar.

Essa realidade não é tão distante, pois atualmente alguns países orientais ainda oprimem as mulheres tratando-as apenas como um objeto de decoração e prazer – em alguns casos nos países ocidentais não é muito diferente, tendo em vista os números de crimes de violência contra mulher que só aumentam a cada ano.

Talvez esse seja justamente o foco da diretora Mounia Meddour, mostrar como os avanços em relação à igualdade vêm sendo trabalhados a passos muito lentos, tendo em vista que desde a década de 1990, até os dias atuais, poucas coisas mudaram em relação a direitos e deveres iguais para ambos os sexos.

Papicha escancara uma dura realidade que precisa ser vista, e mais do que isso, precisa ser modificada. Seguir uma religião é ótimo, mas usar isso para regular tudo que foge de sua realidade e controle é no mínimo cruel com as demais vidas envolvidas, pois nesse contexto só homens saem beneficiados, afinal tudo é decidido por eles.

Duro, triste e cruel, mas com uma gota de esperança semeada pela jovem Nedjma no coração da nova geração argelina. E ainda fica a mensagem de que quando essas jovens gritam por liberdade, não se trata de ir para outros países onde seus ideais são aceitos – cenas muito comum durante o filme – mas sim, de conseguirem o direito de ter voz dentro de sua nação, ajudando a construir um futuro com mais igualdade e oportunidades para os novos membros.

por Leandro Conceição – especial para CFNotícias