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Crítica: Poderia me perdoar?


O mercado de memorabilia – objetos relacionados a famosos – é certamente um mercado de altos valores. O fascínio por tais itens é tal, que leva colecionadores a pagarem valores altíssimos por todo tipo de objeto (indo de cartas a fios de cabelo). Por sua vez, é um mercado povoado por mercadorias duvidosas, e que muitas vezes passam batidas até mesmo por aqueles que deveriam autenticá-las, dado que mesmo se forem falsas, valerão ainda assim muito dinheiro, se o cliente não souber.

Lee Israel, uma escritora de biografias de famosos, tinha um talento enorme para copiar o estilo daqueles que biografava. Esse talento era tão grande, que conseguiu ser um dos principais nomes dentre o meio da falsificação de cartas de famosos nos anos 1990, quando viu sua carreira como escritora entrar em crise. Tendo falsificado mais de 400 documentos, Israel conseguiu até mesmo que uma de suas falsificações fosse publicada em uma biografia renomada – a carta foi removida em edições posteriores.

E é a saga da escritora que “Poderia me perdoar?” (Can You Ever Forgive me?) retrata. Dirigido por Marielle Heller em seu quarto longa na função, e estrelado por Melissa McCarthy, o longa segue a jornada de Israel em seus anos de forjaria de cartas. Também conta com Richard E. Grant como o excêntrico amigo Jack Hock.

Um dos primeiros destaques do filme é a presença de Melissa McCarthy. Diferente de seus papéis usuais, vemos a atriz em uma comédia séria, em que mesmo o personagem cheio de manias e excentricidades, não cai nos tipos interpretados por ela. Inesperadamente, o papel cai bem nela, e não só o lado cômico interpreta muito bem, como o dramático é bem feito. Contracenando com McCarthy, está Richard E. Grant, que merece não menos destaque. Ainda que seu personagem seja um tanto típico em representações de gays, é bem encenado, e faz o papel que lhe foi incumbido, de maneira convincente.

O roteiro é bem conduzido, não só retratando a solidão da autora, como tornando perceptível seu grande isolamento social, além das reviravoltas pelas quais passou, em sua transformação de escritora em crise para uma falsificadora de relativo sucesso. Tudo isso graças a um retrato interessante do interior do mercado de memorabilia, com sua relativa displicência com a autenticidade, em prol dos lucros. Além disso acerta no equilíbrio dos elementos trágicos e cômicos, de maneira que o drama do filme não seja anulado pelo humor e vice-versa, assumindo-se uma comédia trágica, sem errar nos tons, com um humor que não parece zombeteiro aos sofrimentos.

Nos aspectos técnicos o filme também impressiona. A fotografia acerta nos ângulos, mas principalmente nas cores, usando muito tons amarelados para representar uma opulência, e é gritante o quanto as transformações nas cores mostram uma mudança na vida da escritora. A trilha sonora faz jus aos personagens cujas cartas foram falsificadas, dentre eles cantores e compositores de jazz, atrizes e atores, todos personalidades que tiveram sua fama, e até mesmo a vida, na primeira metade do Século XX. Desta maneira a música composta faz uso de sonoridades próprias do jazz, em sua instrumentação, melodias e harmonias, e as canções são todas de cantoras e compositores do período supracitado, alguns dentre os falsificados.

Por fim, “Poderia me perdoar?”, é uma tragicomédia rica, um dos melhores trabalhos de Melissa McCarthy, e recomendada a todos que querem assistir uma história cativante, e que vai deliciar aqueles que gostam de dramas inspirados em fatos reais.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias