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Crítica: “Slender Man: Pesadelo Sem Rosto”


Em 2009, duas fotos começaram a se espalhar na internet. Elas retratavam diferentes grupos de crianças, em diferentes locais e momentos, porém em ambas um mesmo elemento é comum: uma entidade com forma de um magro e alto ser humano, usando terno e gravata, e sem face. As legendas das figuras indicavam resultados sinistros das aparições da entidade, com ambos os grupos desaparecendo. Assim nasceu a lenda do Slender Man.

É claro que não passavam de farsas, criadas numa competição do web forum Something Awful para criar fotos de flagras paranormais em imagens do dia-a-dia, porém a história ganhou inércia. O personagem criado por Victor Surget (Pseudônimo de Eric Knudsen) seria referência para várias histórias de terror escritas na internet chamadas creepypastas, dois jogos indie – “Slender: The Eight Pages” e “Slender: The Arrival” -, vídeos da internet, e até mesmo para um crime, na qual uma menina alegou que Slender Man teria exigido que ela esfaqueasse sua amiga – a menina também alegou que teve conversas com uma Tartaruga Ninja e com Lorde Voldemort, de Harry Potter, curiosamente todos personagens sem nariz.

E agora também serve como vilão no filme “Slender Man: Pesadelo Sem Rosto” (Slender Man), do diretor Sylvain White. A trama se passa em uma pequena cidade de Massachusetts, onde um grupo de quatro meninas – Wren (Joey King), Hallie (Julia Goldani Telles), Chloe (Jaz Sinclair) e Katie (Annalise Basso) – invocam a criatura, assistindo a um vídeo da internet. Uma semana depois, Katie desaparece, e elas precisam invocar novamente Slender, e sobreviver, para tentar salvar sua amiga. Porém, a entidade não deseja que elas obtenham sucesso e fará todo o possível para que falhem.

É um filme com boas ideias, uma mistura de trama de chegada da idade, com terror adolescente, com uma criatura misteriosa e assustadora. É interessante perceber como o roteirista entendeu o fenômeno da boataria e mitos da internet, e como o conecta a uma extensão da mitologia. Porém falha em sua execução, pois a essência de Slender não foi compreendida bem: na maioria dos materiais de respeito sobre a entidade, incluindo as fotos originais, nunca o monstro se expõe muito, e quando se vê com clareza, diga adeus porque você vai morrer, particularmente nos jogos.

O longa várias vezes expõe o monstro sem necessidade, mesmo sendo somente dentro do pensamento das quatro meninas, mas à audiência a criatura está visível também. Isso seria contrabalanceado com visuais bem feitos, mas o personagem, feito de maneira apenas digital está pouco crível. A grande parte do terror no fim fica a cargo dos jumpscares, que povoam a maior parte das produções de terror modernas, pois o suspense da criatura e suas ações é logo anulado.

Também faz várias referências ao material em que se inspira, como uma cena na qual uma das meninas está correndo por um bosque e topa com o ser, da mesma maneira que no jogo se foge do Slender. Além disso a personagem principal carrega o mesmo sobrenome do criador de Slender Man: Knudsen. Isso se contrabalanceia com o fato de ser perceptível restos de tramas que seriam usadas no filme, e acabaram descartadas. Além disso, existe abundância de cenas que não levam a lugar nenhum, e foco exagerado em momentos que a plateia já entendeu, reforçados para piorar pelos efeitos digitais fracos.

Para não falar que o título é de todo ruim, em sua parte de fotografia, apesar de se basear em alguns clichês, tem cenas bem interessantes, quando não usa efeitos digitais. A trilha (também clichê)  usando sons não usuais de instrumentos e estalos de arvores reforça a cena, e se não fosse o suspense mal-feito, conseguiria aumentaria a tensão.

Por fim, “Slender Man: Pesadelo Sem Rosto” é mais para quem é fã de jumpscares do que um terror mais apavorante. Infelizmente mesmo com a variedade de materiais de referência – talvez esse fosse o problema –, o longa não soube explorar as bases mais banais do personagem.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias