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Crítica: Um Ato de Esperança


Um drama denso na tela do cinema é o que oferece Um Ato de Esperança (The Children Act). Um típico filme inglês (embora uma das empresas produtoras seja estadunidense), com seus personagens, seu ritmo, costumes, locais, diretor, principais artífices (fotografia, edição, música), maioria de atores britânicos, todos com esse carimbo.

Um caso complexo se apresenta a Fiona Maye, juíza britânica (Emma Thompson) com antecedentes na área de procedimentos médicos limítrofes. Nesta oportunidade, um menor de 18 anos, está gravemente enfermo. É Testemunha de Jeová e por sua família, mas também com convicções próprias, por motivos religiosos vinculados a essa condição, pretende rejeitar o único tratamento médico que poderia salvar sua vida. Trata-se de uma transfusão de sangue que necessita para livrar-se da doença que está acabando com ele.

Porém, tanto os pais quanto o jovem doente se opõem a tal procedimento, com argumentos tais como: A vida é um dom de Deus; O mais característico de cada uma dessas vidas é o sangue; Trocá-lo de um indivíduo para outro representa alterar algo essencial. Por isso a transfusão não é aceita sob nenhuma circunstância. “Deus é o autor superior da vida” – argumentam. Mas, no filme, esta posição é relativizada, justamente, por não deixar espaço para diferir.  O jovem afetado tem sua visão negativa sobre o que acontece no mundo: “Tudo é errado. Assassinatos, infidelidades, torturas, mentiras, tudo é errado”. Porém, ele não quer impor-se a outros. Só manter suas convicções.

A Justiça deve decidir se o tratamento será feito ou não. A juíza que intervém, também tem posições firmes: “Este tribunal dita Justiça, de acordo à Lei. Não à moral”. Também paira no ar aquele princípio jurídico que, perante valores confrontados, o que deve prevalecer é “o bem protegido” – neste caso, a vida de um menor de idade. Com essa base inicial, escuta aquelas declarações, mas também, os informes dos especialistas científicos. Médicos com conhecimentos e experiência lhe dão um panorama que é praticamente definitivo com relação ao que vai acontecer com o doente se não fizer a transfusão: grandes sofrimentos e uma morte muito cruel o aguardam.

Paralelamente ao caso jurídico, Fiona Maye se defronta com um sério problema pessoal: seu matrimônio vai se desmoronando e isso a afeta de maneira profunda e lhe altera o humor ao ponto de transformar-se no modo de transmitir suas impressões e decisões. Assim se aproxima o momento de tomar a decisão final sobre o assunto. Porém, de forma inesperada, inusual, ela vai visitar pessoalmente no hospital ao doente.

Isso não vai mudar o curso geral do caso desde o ponto de vista jurídico. Que provavelmente pode ser resumido dizendo que o que importa é “o bem a ser protegido”. E esse valor prioritário deve ser a vida do jovem. O filme sublinha: “O bem-estar do rapaz. Esse é o Norte, segundo a Lei inglesa. Deve ser protegido da religião e de si mesmo”. Mas a visita mencionada, vai dar margem para uma inesperada revira volta. Aí se inicia outra parte do longa, cada vez mais tenso. É o que lhe dá uma condição diferente às ideias prévias que o espectador pode levar ao ingressar na sala.

Um Ato de Esperança vai além do que se poderia esperar – que de por si seria interessante: certo conflito entre ciência e religião. Aquele “cumprir a Lei, isso é tudo”, às vezes não resulta suficiente. O filme procura mostrar que a vida é mais rica e complexa que essa definição.

Essas mudanças evidenciam um bom roteiro e uma boa direção. O primeiro assinado por Ian McEwan – como roteirista e adaptador do texto de sua autoria. McEwan é um famoso escritor inglês, ateu polêmico, sua marca se evidencia aqui até por algumas expressões dos personagens. Por exemplo, o esposo da juíza, em sua condição de professor, diz a seus alunos: “O cristianismo fechou a mente de Ocidente”. O tom geral da produção pode ser interpretado nesta linha. Mas o destacado são essas inteligentes e surpreendentes mudanças. Da mão do anterior, também está a boa condução de Richard Eyre que conseguiu traduzir em filme o texto prévio.

Há um excelente trabalho na atuação da amadurecida Emma Thompson, que representa sua vida, suas emoções, a sentida ausência de um filho e, paralelamente, seu rol de juíza em casos complexos. Seu sofrimento na crise matrimonial e seu vínculo com o jovem deste caso. Séria, a procura da correção em suas determinações legais, também quer “ser livre e selvagem”. Thompson é acompanhada em especial por Stanley Tucci (o esposo), Jason Watkins (um ajudante sempre atento e disposto a cumprir diverso tipo de tarefas) e Ben Chaplin (o pai do jovem). Aceitável, mas sem grandes brilhos, Fionn Whitehead (o jovem doente).

Corretos os elementos técnicos, que auxiliam na criação de climas e um ritmo dramático de bom nível. Fotografia (Andrew Dunn) e edição (Dan Farrell), conduzidas por profissionais com vasto currículo, conseguem momentos primorosos como, em especial, em algumas sequências, onde a câmera se desloca acompanhando à protagonista e os cortes são exatos.

Um Ato de Esperança é intenso emocional e intelectualmente e está destinado a um público que goste de dramas, relatos densos com revira voltas, aos que se acrescentam debates entre posições opostas perante a vida e a morte.

por Tomás Allen – especial para CFNotícias