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Crítica: Veneza


Baseado em uma peça de teatro que o diretor Miguel Falabella assistiu anos atrás, “Veneza” é um drama com ares de fábula e cercada de poesia. Na trama, Gringa é dona de um bordel e, mesmo já tendo uma idade avançada e estando cega e doente, insiste em realizar um sonho: ir até Veneza para pedir perdão ao único homem que amou e abandonou há décadas. Tonho (Eduardo Moscovis), Rita (Dira Paes) e as outras mulheres que trabalham no bordel se juntam para encontrar uma forma de realizar o último desejo de Gringa.

Com uma bela fotografia, o filme se passa em uma época incerta, em algum lugar no interior do Brasil que não é definido, dando à obra um aspecto de conto de fadas, de uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar de um passado não muito distante.

A narrativa lúdica e ingênua parece ter sido uma forma de tornar mais palatável a realidade dura das personagens que vivem em situação de prostituição, tendo como único entretenimento o circo da cidade.

Certas partes que retratam a vida difícil das mulheres do bordel, podem ser um tanto desconfortáveis, e a normalidade com que são apresentadas pode causar um certo estranhamento no início do filme. A narrativa se passa em praticamente apenas dois ambientes, o bordel e o circo, este segundo desempenhando um papel importante, como um lugar para se divertir e se permitir sonhar.

A atriz espanhola Carmen Maura interpreta muito bem a protagonista, uma mulher que mesmo em posição de fragilidade não desiste do sonho de conhecer a cidade onde vivia amor que abandonou, não porque não o amava, mas porque tinha outros planos de vida – e talvez por não conhecer nada além da vida na prostituição.

O desejo de Gringa, que tem esse apelido por ser espanhola, é o que move a trama, em um ambiente em que é a única que se permite sonhar e não se conformar com a dura realidade em que se encontra. A exceção é a prostituta Madalena (Carol Castro) que, mesmo com poucas oportunidades, sonha com um futuro feliz em São Paulo.

Enquanto Gringa quer viajar para se reconciliar com um amor do passado, Madalena deseja viajar junto de seu amado para construir um futuro. É apaixonada por Júlio (Caio Manhente), um jovem cliente que sonha em fugir para viver com ela e poder finalmente se vestir como mulher, desejo que esconde do pai conservador.

O relacionamento dos dois é representado de uma forma bonita e singela, e apesar de não estar na peça original, casa bem com a temática de sonhos e desejos que percorre a trama. A personagem sonhadora de Madalena rendeu dois prêmios de melhor atriz coadjuvante para Carol Castro: o Kikito no Festival de Gramado de 2019, e a estatueta no Los Angeles Brazilian Film Festival.

Mesmo sem ligações de sangue, a obra mostra uma família que é unida à sua maneira e que busca ajudar, da forma que pode, sua matriarca. De uma forma poética e com um toque de magia, “Veneza” nos mostra, de forma emocionante, o poder transformador que a arte possui e sua capacidade de tornar realidade, através da imaginação, os sonhos que pareciam impossíveis.

por Isabella Mendes – especial para CFNotícias

*Título assistido via streaming, a convite da Imagem Filmes.

*Crédito das fotos: Mariana Vianna.