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Crítica: “Vingança a Sangue-Frio”


“Vingança a Sangue-Frio” (Cold Pursuit) segue a retaliação de Nels Coxman (Liam Neeson), um cidadão exemplar da pequena Kehoe, responsável por manter as estradas livres de neve. Após ter seu filho assassinado por mafiosos responsáveis pelo tráfico de drogas na região, Nels não parará até ver todos eliminados. Dirigido por Hans Petter Moland, é uma refilmagem livre do filme sueco-norueguês “O Cidadão do Ano” (Kraftidioten), além da estreia do diretor em Hollywood.

O longa, apesar de tentar ser uma comédia macabra de ação, é o típico thriller de ação estrelado por Neeson. Desta maneira, conta com um protagonista polivalente e eficiente, vilões que, apesar da natureza de seus negócios, andam de maneira óbvia, e facilmente abrem as bocas para falar quando minimamente torturados, além de outros clichês que também se encontram em “Busca Implacável”, filme que lançou o ator irlandês como o típico herói deste estilo. Isso não chega a ser ruim e os fãs ficarão satisfeitos ao assistir.

A fotografia e cenografia são muito bem planejadas, com o uso de cores desbotadas e um grande foco no azul, cinza e branco, cores típicas para representar o inverno, bem utilizadas. No departamento sonoro, o destaque fica pelo uso do sound design criativo que faz o filme tomar uma amplitude interessante, ainda mais em conjunto com a trilha sonora, que também é correta.

Liam Neeson convence como o herói de ação, inadequado socialmente e depressivo, neste que reflete seu trabalho mais dramático. Os coadjuvantes estão dignos e convincentes para um filme de ação, mas nada mais. Curiosamente, ainda que na divulgação do filme o nome de Laura Dern esteja em destaque, ela pouco aparece, e tem uma atuação bem dramática, na beira do exagero, e talvez fosse mais atrativa em uma obra de David Lynch.

O problema da produção está em alguns elementos fundamentais. Em primeiro lugar a inconsistência de estilos, que se dá ao fraco humor, que às vezes se perde nas barbaridades em tela, ou que simplesmente não parece algo cômico ou feito para rir. O humor também se baseia em algo que é bem grave: estereótipos racistas.

O único negro que tem alguma relevância não consegue falar uma frase sem um erro crasso gramatical, um estereótipo bem comum nos EUA; os índios são obsessivos com honra e tradição, com seus antigos rituais, e cruéis em suas práticas; uma personagem chinesa não se importa em aprender ou falar inglês, e fica reclamando constantemente dos americanos, mesmo casada com um. Embora tente representar uma riqueza étnica, todos esses estereótipos dificilmente refletem a realidade, sendo na verdade concepções racistas antigas que se tem destes grupos.

Apesar de ser um provável candidato a agradar quem já é fã da filmografia prévia de Liam Neeson e de títulos do gênero, “Vingança a Sangue-Frio” não oferece muito mais que isso, além de correr grande risco de desagradar parte do público por suas escolhas questionáveis de como tratar determinados temas.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias