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Todos querem ser Cary Grant


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Nascido Archibald Alexander Leach há 110 anos, no dia 18 de janeiro de 1904, e falecido em 29 de novembro de 1986, o ator Cary Grant foi um dos mais populares e queridos astros dos “anos de ouro” de Hollywood, desde meados da década de 1930 até meados da de 1960. Natural de Horfield, Bristol, na Inglaterra, tornou-se cidadão norte-americano apenas em 1942, quando era já um dos mais famosos astros do cinema daquele país. Mais acabado exemplo do típico galã de Hollywood – bonito, charmoso, jovial, atlético, elegante, sagaz, com excelente timing cômico –, foi eleito pelo American Film Institute o segundo maior ator da história do cinema norte-americano, atrás apenas de Humprhey Bogart, à frente de James Stewart e Marlon Brando. Foi indicado duas vezes ao Oscar de Melhor Ator – em 1941, por Serenata Prateada (Penny Serenade), e em 1944, por Apenas um Coração Solitário (None But The Lonely Heart) –, mas ganhou apenas um Oscar honorário, pelo conjunto de sua obra, em 1970.

Em homenagem a esse artista de trajetória incomparável, o CINUSP Paulo Emílio inicia suas atividades deste ano com a mostra TODOS QUEREM SER CARY GRANT, uma abrangente retrospectiva com quinze dos mais importantes e reverenciados filmes estrelados pelo astro. O título do evento se refere a uma das mais famosas frases atribuídas ao ator, que teria declarado durante uma entrevista: “Todo mundo quer ser Cary Grant. Até eu quero ser Cary Grant!”

Sempre impecavelmente vestido e penteado, sempre com uma resposta sagaz na ponta da língua, Grant encarnou o mais perfeito “boa praça” do cinema norte-americano, o homem que todos queriam ter por perto, como amigo ou amante. Sua elegância e charme teriam servido de “modelo” para o escritor inglês Ian Fleming criar o agente secreto James Bond, que teria sido delineado pelo autor com o astro em mente.

Quando as histórias de Bond finalmente chegaram ao cinema, em 1962, Grant chegou a ser convidado para protagonizar O Satânico Dr. No, mas recusou, acreditando-se já velho demais para um papel que o ocuparia por muitos anos. Dono de um carisma inigualável, Grant destacou-se por quase quatro décadas como protagonista de comédias, filmes de aventura e de romance. Encarnação absoluta do “homem comum”, seu jeito meio aparvalhado lhe permitiu viver com perfeição papeis de homens ordinários envolvidos em situações extraordinárias, como aqueles que interpretou em Levada da Breca, Intriga Internacional e Esse Mundo É um Hospício.

Por outro lado, seu sorriso cínico e seu olhar malicioso o tornaram também a escolha ideal para interpretar personagens ambíguos, que podem sempre estar ocultando algum segredo por trás da aparente polidez, como o ex-criminoso de Ladrão de Casaca, ou o marido que pode ou não ser um assassino em Suspeita, outro clássico de Alfred Hitchcock.

Cary Grant começou sua carreira de ator ainda criança, aos seis anos de idade, quando o pai permitiu que ele integrasse uma trupe de teatro itinerante em turnê pela Alemanha. Aos sete anos, viajou com a companhia para Nova York, para apresentações na Broadway. Ao fim da temporada, Grant voltou a Bristol e aos estudos, mas abandonou a escola aos treze anos de idade, forjando a assinatura do pai para conseguir entrar para a trupe do comediante Bob Pender.

Por dois anos, apresentou-se em diversas cidades da Inglaterra até que, em julho de 1920, aos dezesseis anos, foi uma das oito pessoas escolhidas por Pender para uma bem-sucedida turnê de dois anos pelos Estados Unidos, ao fim da qual decidiu não retornar à Inglaterra. Trabalhou então como lanterninha de cinema, vendeu gravatas e fez espetáculos mambembes de variedades, enquanto continuava aperfeiçoando no palco seu talento para a comédia física, para malabarismos e equilibrismo. Ao se mudar para Hollywood, sua bela aparência chamou a atenção de Ben Schulberg, da Paramount.

Seu nome de batismo, porém, era um obstáculo: era urgente mudá-lo e foi assim que nasceu Cary Grant. Continuou atuando em pequenos papeis no teatro e no cinema até 1932, quando o diretor Josef von Stenberg lhe deu sua primeira grande oportunidade ao chamá-lo para contracenar com Marlene Dietrich em A Vênus Loira (Blonde Venus). Ao longo dos anos seguintes, atuou em cerca de vinte filmes, até alcançar o estrelato fazendo par romântico com Mae West – em Uma Loira Para Três (She Done Him Wrong) e Santa Não Sou (I’m No Angel), ambos de 1933 – e com Katharine Hepburn, em Vivendo em Dúvida (Sylvia Scarlett), de 1935.

Mas foi apenas em 1937, com o grande sucesso de A Dupla do Outro Mundo e, principalmente, Cupido É Moleque Teimoso, que Cary Grant se tornou verdadeiramente uma superestrela. Dirigido por Leo McCarey, com quem o ator era fisicamente parecido e de quem copiou muitos dos trejeitos que passaria a usar em cena, Grant forjou em Cupido É Moleque Teimoso sua persona cinematográfica definitiva, do homem elegante e algo atrapalhado, charmoso e malicioso, mas também delicado e gentil. A partir dali, esse seu perfil seria explorado incontáveis vezes, transformando-o no maior galã de comédias românticas que Hollywood já teve.

Participou como ator de quase oitenta filmes e protagonizou alguns dos maiores sucessos de bilheteria das décadas de 1930, 1940, 1950 e 1960. Ao longo dessas décadas, manteve-se no posto de um dos mais bem-sucedidos e requisitados protagonistas de Hollywood, estrelando uma quantidade impressionante de clássicos do cinema – principalmente comédias, como Boêmio Encantador, Levada da Breca, Jejum de Amor, Núpcias de Escândalo e Esse Mundo É um Hospício, mas também grandes aventuras (Gunga Din, O Paraíso Infernal, Intriga Internacional), dramas (Serenata Prateada, Tarde Demais para Esquecer) e filmes de suspense (Suspeita, Interlúdio, Ladrão de Casaca, Charada).

Em meados dos anos 1950, fundou sua própria produtora, a Granart Productions, responsável por uma série de sucessos como Indiscreta (Indiscreet), Anáguas a Bordo (Operation Petticoat), Carícias de Luxo (That Touch of Mink) e Papai Ganso (Father Goose). Embora tenha falecido apenas vinte anos depois, Cary Grant encerrou sua carreira cinematográfica em 1966, após atuar em Devagar, Não Corra (Walk, Don’t Run): àquela altura, considerava-se velho demais para viver protagonistas e alegava que seus fãs não o aceitariam em papeis secundários.

Ator favorito de muitos dos diretores com quem trabalhou, Cary Grant estabeleceu duradouras parcerias com alguns dos maiores cineastas da história do cinema, que estão bem representadas pela seleção de filmes que o CINUSP oferece agora ao seu público. Com George Stevens, realizou três filmes, dos quais dois (E a Vida Continua e Gunga Din) foram selecionados para esta mostra. Com Leo McCarey, seu primeiro mentor, realizou duas obras marcantes em sua trajetória, também incluídas nesta programação: Cupido É Moleque Teimoso e, vinte anos depois, Tarde Demais para Esquecer.

Outro dos maiores diretores dos anos de ouro de Hollywood, o lendário Howard Hawks, teria afirmado em diversas ocasiões que Grant – dirigido por ele nada menos do que cinco vezes – era incomparavelmente o maior e melhor ator do cinema norte-americano. Essa frutífera colaboração entre Hawks e Grant, uma das mais celebradas parcerias ator-diretor da história do cinema, está representada nesta seleção por uma comédia (Levada da Breca) e um filme de aventura (Gunga Din).

Juntamente com James Stewart, Cary Grant foi também o maior protagonista de filmes de Alfred Hitchcock: como o colega, estrelou quatro filmes do “mestre do suspense”: Suspeita, Interlúdio, Ladrão de Casaca e Intriga Internacional (dos quais os dois últimos foram incluídos nesta mostra). E, embora Hitchcock considerasse Stewart seu ator favorito, o diretor teria declarado certa vez que “Cary Grant foi o único ator que eu já amei, em toda a minha vida”.

Curiosamente, Grant e Stewart jamais contracenaram sob a batuta do cineasta inglês, mas se encontraram nas telas em 1940, quando eram ambos ídolos da juventude, em Núpcias de Escândalo, outra atração desta mostra e obra de outro parceiro constante de Grant: George Cukor, com quem ele realizou também Boêmio Encantador (incluído nesta mostra) e Vivendo em Dúvida, todos ao lado de Katherine Hepburn, com quem fez par romântico nas telas em quatro ocasiões distintas.

A presença (e eventual repetição) de grandes diretores na filmografia de Grant, aliás, encontra paralelo na profusão de grandes atrizes com quem contracenou. Durante toda sua carreira, do primeiro ao último filme, Cary Grant foi o galã irrepreensível de algumas das maiores e mais belas estrelas do cinema, como Marlene Dietrich, Grace Kelly, Joan Fontaine, Ginger Rogers, Sophia Loren, Audrey Hepburn, Doris Day, Mae West (com quem contracenou duas vezes), Ingrid Bergman (também duas vezes), Irene Dunne (três vezes) e Deborah Kerr (também três vezes).

Apesar disso, a suposta bissexualidade de Grant e um escandaloso romance secreto com o ator Randolph Scott o levaram a dois malfadados casamentos: o primeiro com a atriz Virginia Cherrill, que durou apenas um ano, e o segundo com a milionária Barbara Hutton, que durou três.

Ao longo de sua vida, Cary Grant se casaria ainda outras três vezes: com as atrizes Betsy Drake, de 1949 a 1962, com quem contracenou duas vezes, e Dyan Cannon, de 1965 a 1968, com quem teve sua única filha, Jennifer; e com a relações públicas inglesa Barbara Harris, de 1981 até sua morte, em novembro de 1986, quando sofreu um grave acidente vascular cerebral prestes a entrar em cena para uma apresentação de seu espetáculo teatral solo An Evening With Cary Grant. Chegava ali ao fim uma das mais inacreditáveis trajetórias de um ator em Hollywood. Uma vida e uma carreira impressionantes, às quais o CINUSP Paulo Emílio presta agora um oportuno tributo.

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da Redação CFNotícias

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